Há exatos 96 anos, nascia Helena Meirelles, a dama da viola de Mato Grosso do Sul que derrubou preconceitos e encantou o guitarrista Eric Clapton com o seu jeito de tocar.
Conheça a história dessa grande artista da música regional de fronteira, que vai virar filme pela terceira vez, com estreia ainda este ano. Artistas e admiradores falam sobre o legado da diva, que aprendeu a tocar sozinha e passou décadas se apresentando na zona
Parece meio cabeluda a história que liga a grande dama da viola de Mato Grosso do Sul à mais tradicional linhagem do blues, a música de raiz dos EUA, que surgiu na beira do Rio Mississipi, no meio das plantações de algodão. Os mais novos talvez nem saibam. Quem tem mais de quarenta deve se lembrar.
Até hoje, somente dois nomes brasileiros do violão – João Gilberto e Helena Meirelles – receberam elogios rasgados do guitarrista Eric Clapton, renovador do blues nos anos sessenta, chamado de Deus em pichações nas ruas de Londres.
O músico baiano, um dos pais da bossa nova, foi elogiado pelo ilustre fã inglês em outubro de 2011, durante uma das turnês de Clapton no Brasil.
Helena Meirelles nasceu há exatos 96 anos, em Campo Grande, numa sexta-feira 13, e se tornou internacionalmente conhecida após figurar com destaque nas páginas da revista norte-americana Guitar Player em 1993.
Teria partido do grande guitarrista o voto e os argumentos que fizeram Dona Helena integrar a lista dos 101 instrumentistas homenageados pela publicação. Um pôster encartado na revista estampava a palheta de feras como Jimi Hendrix, B.B. King e George Benson.
Na imagem, a partir do ensaio fotográfico de Erik Butler, somente a dama da viola caipira e duas outras mulheres – a roqueira Lita Ford, dos EUA, e canadense K.D. Lang.
“Eu nasci em 1924. A minha tataravó é índia, pegada no mato do Paraná. A mãe do meu pai era paraguaia. O pai do meu pai era mineiro. O pai da minha mãe era paraguaio e minha vó era paulista. Eu tenho sangue de tudo o que é bicho. E bicho perigoso, venenoso. Porque eu fui cobra, fui braba”. É assim que a artista se apresenta, mirando a câmera com a expressão séria, que poucas vezes abandonava o seu semblante, no documentário Dona Helena (2006), dirigido por Dainara Toffoli.
O nome de Helena Meirelles chegou ao conhecimento da Guitar Player graças a um de seus sobrinhos, Mário de Araújo, filho da irmã Natália, que enviou uma fita com gravações caseiras para a revista.
A partir daí, com o poder de repercussão da indústria cultural dos EUA, e sua enorme capacidade de erguer e derrubar carreiras, foi só questão de tempo.
A cabocla matuta criada na Fazenda Jararaca, que aprendeu a tocar sozinha aos nove anos, escondendo-se da fúria repressora do pai, finalmente iria se tornar destaque em jornais, revistas e programas de tevê de todo o país, fazer shows concorridos na cidade grande, gravar discos. Ser, enfim, uma estrela.
E foi tudo muito rápido para quem fugiu de casa, aos 16 anos, com o primeiro marido, e havia passado mais de cinco décadas virando noites na zona do meretrício de cidades como Bataguassu (MS) e Presidente Epitácio (SP), localizadas nas margens opostas do Rio Paraná.
Seu programa nos bordéis era tocar para a clientela, sempre acompanhada de doses e mais doses de pinga e do fumo mascado, outro companheiro inseparável até sua partida, em 28 de setembro de 2015 por causa de uma pneumonia. Mas Dona Helena fez de tudo na vida. Foi lavadeira, benzedeira, parteira. Só não foi capacho de ninguém. E punha sua arte acima de tudo.
As canções que ela tocava desde menina e as composições que vieram depois são duas facetas muito parecidas de uma mesma moeda apresentada em seus quatro discos lançados. E em antológicas apresentações ao vivo, de norte a sul do Brasil.
Um repertório bastante representativo da música regional de fronteira do cerrado, que apresenta uma diversidade de gêneros, como o rasqueado, o chamamé, a guarânia e a polca paraguaia, e cala fundo no coração de quem carrega na alma o sentimento pantaneiro.
Os quatro discos, lançados entre 1994 e 2002, venderam aproximadamente 100 mil cópias. De ouvidos aguçados e exigentes, Dona Helena não ficou satisfeita com o resultado do quarto trabalho, Ao Vivo – De Volta ao Pantanal, o primeiro a ser lançado fora da Eldorado. Há um quinto registro em disco, Os Bambas da Viola, com a sua participação apenas em uma das faixas.
Muita coisa é incerta e contraditória na sua biografia. Nascera em Campo Grande mesmo? Em Bataguassu? Ou Nova Andradina? As terras da antiga Jararaca, hoje chamada Fazenda Santa Inês, estão localizadas entre esses municípios, que distam mais de 300 quilômetros da capital.
Fora uma Medeia inconsequente, que abandonava os filhos à própria sorte, ou mãe zelosa, capaz de dar conta deles desde o parto, que, aliás, costumava encarar sozinha, sem nenhuma ajuda? Ofereceu somente a sua música nos bailes da vida ou precisou submeter-se ao desejo dos homens para sobreviver.
Qual era o seu instrumento? A viola ou o violão? Tocava bem, de fato? Ou todo o folclore construído em torno de uma imagem valoriza demais a sua habilidade musical?
Brenda Violeira tem Helena Meirelles como inspiração – Correio do Estado
Uma lenda é uma lenda e elas costumam fazer a delícia dos biógrafos. Embora não exista ainda um livro escrito sobre Helena Meirelles, é possível encontrar estudos acadêmicos, dois documentários e mais uma produção audiovisual inédita, com estreia prevista para outubro ou novembro.
Além do documentário de Dainara Toffoli, também está disponível no YouTube A Dama da Viola (2004), com direção de Francisco de Paula. São duas visões diferentes, embora não conflitantes, da trajetória da artista.
O primeiro dedicado a flagrar o sucesso tardio e seus impactos na vida de uma senhora de personalidade forte, que nunca deixou de ser uma mulher simples e batalhadora.
O segundo, rodado exclusivamente em locações sul-mato-grossenses, dedica-se a mostrar a rotina brejeira do campo, o contato com os animais e a paisagem natural que deram régua e compasso para a futura estrela cabocla brilhar.
O terceiro trabalho, que deve estrear nos próximos meses, é Flor da Guavira, também nome do segundo disco e de uma das canções mais conhecidas da violeira, com direção do jornalista Rogério Zanetti e produção de Marcos Roker.
“Procurando por informações sobre ela, percebi que quase tudo era focado em sua vida pessoal: se é verdade ou não que tocava em “zona”, que teve todos os filhos sozinha no mato, que gostava de beber. Durante as pesquisas percebi que quase tudo é lenda.
O filme é um antigo desejo de resgatar a história dessa artista única”, afirma Zanetti, que ainda sonha com um depoimento de Eric Clapton para o seu doc. Não bastasse a pandemia, o guitar hero revelou, há quatro anos, sofrer de neuropatia periférica, que compromete, inclusive, o movimento das mãos.
Com ou sem Clapton, será a volta da estrela pantaneira ao mundo do cinema. Logo ela, que entrou pela primeira vez em uma sala de projeção para assistir um filme sobre a própria história.
Helena Meirelles teve três casamentos, muitos amores, onze filhos. E uma chance improvável de sucesso que a transformaria em um fenômeno, como aconteceu a sambista Clementina de Jesus, descoberta tardiamente em 1963 no Rio de Janeiro.
A vida desregrada nos faz aproximá-la das divas do blues, como Billie Holiday e Janis Joplin, que tiveram bem menos sorte do que Helena, não resistiram ao vício e se foram cedo demais.
A quase ausência feminina no panorama establishment do violão brasileiro traz ainda à lembrança um nome célebre, Rosinha de Valença, rara exceção a obter reconhecimento na música popular por tocar tão bem.
Confira, a seguir, quem foi Dona Helena para alguns artistas que acompanham a sua trajetória, trabalharam e conviveram com ela ou pertencem à nova geração de fãs.
Dona Helena fazendo o que mais gostava: tocar – Foto: Divulgação
Jas Obrecht, editor da Guitar Player de 1978 a 1998
Helena tem uma técnica muito boa. Um estilo maravilhoso de dedilhar com a mão direita. E com a mão esquerda, ela não tem medo de chegar aos registros agudos, de experimentar mudanças de ritmo e de compasso.
(…) Quando a minha vida acabar e eu me aproximar dos portões de São Pedro, de onde eu estiver, eu espero ouvir a música da Helena ou Jimi Hendrix tocando All Along the Watchtower. Pois se ouvir algum deles, sei que entrarei e irei pro céu. (depoimento recolhido no documentário Dona Helena)
Rogério Zanetti, diretor de Flor da Guavira, ainda inédito
Estamos documentando uma artista já falecida, não a temos para falar conosco. Então, o personagem principal é o violão que ela mais gostava de tocar. Os artistas entrevistados estão sempre com esse violão em punho, entre eles, Marcelo Loureiro, Michel Teló, Márcio di Camillo e Sérgio Reis.
(…) Decidimos fazer um documentário que tratasse de seu trabalho musical, a maneira incomum de tocar seu instrumento, e, além disso, buscar registros de sua história pessoal, como por exemplo, chegar ao local exato em que nasceu.
Mário de Araújo, sobrinho e produtor
A relação da Helena com homem sempre foi muito conflitiva. Era comigo também. Muitas vezes eu tinha impressão disso, de que ela me via como um homem, não como um sobrinho, afilhado, nascido nas mãos dela, produtor dela, e tentando conduzir a carreira e coisas boas para ela. Mas um homem tentando dominar. Dirigir a vida dela. E ela reagia a essas coisas.
Marcelo Fernandes, professor de violão da UFMS
Tem um certo romance em cima, uma imagem construída, sobre quem de fato parece ter sido. Ela personifica a figura da violeira. Formalmente, sua música parece com tudo o que você tem no universo caipira. Representa uma tradição de 200 anos que, para mim, morreu com ela.
Helena era uma mestra, que carrega essa tradição da música caipira nela e incorporou tudo isso.
As harmonias, acordes e melodias são muito simples do ponto de vista da construção. Mas, quanto à execução, ela tem um jeito de tocar que é uma perfeição. Quando a gente chega perto, encontra uma objetividade sagaz. Talvez a maior objetividade que já vi num artista. É certo ou errado, limpo ou sujo. Ela não erra. Tem uma cognição musical superior à média das outras pessoas. Mesmo com todos os percalços da vida, ela não erra. É uma pessoa que quer fazer o certo e, com esforço enorme numa direção, chega a um resultado inusitado.
Tatiana Toffoli, roteirista e montadora de Dona Helena (2006)
Eu nunca tinha conhecido uma mulher tão forte e determinada. Um talento e uma dedicação imensa ao violão. Também se dedicou muito a um dos filhos, que tinha uma questão neurológica. Então se realizou também como mãe.
Gravei a entrevista com o filho, o segundo marido, as senhoras que conheceram ela na zona.
Ela não sabia que a gente estava entrevistando essas pessoas porque a gente tinha medo de que ela dissesse que não era para entrevistar. Então a gente não falou mas logo depois ela ficou sabendo e não gostou muito, porque eu acho que ela queria dominar a narrativa do início ao fim.
Sempre lembro dela falando “se não trabalhar, não vai; bom pra mim, melhor pra mim fica se eu morrer trabalhando”. Estar na frente de uma mulher tão potente foi muito marcante, um privilégio enorme.
Dainara Toffoli, diretora de Dona Helena 2006
Fomos para Presidente Epitácio, fazer os acertos e assinar o contrato. Uma semana antes de voltarmos, ligamos pra Dona Helena e de repente ouço a (produtora) Mônica (Schmiedt) dizer “como assim Dona Helena? A Sra. está fazendo outro documentário?!” Caí para trás. Ela já tinha assinado um outro contrato de um outro documentário sobre a vida dela e estava rodando na mesma época que nós.
Foi um susto porque é muito complicado você ter um outro produto, os dois sendo lançados na mesma época, concorrendo pela atenção das tevês, festivais etc. O estar no mundo da Dona Helena era estar tocando.
A viola foi uma companheira de verdade a vida inteira, era ali que ela se refugiava e se expressava. Ela tem uma história de vida fantástica, uma mulher que o tempo inteiro tentou ter autonomia. Essa necessidade era materializada em poder ou não tocar e ela exigia isso.
Francisco de Paula, diretor de A Dama da Viola (2004)
Teve uma sessão de gala com tapete vermelho muito emocionante no Cine Odeon (RJ), onde se tocava Villa-Lobos e outras trilhas. Ela foi muito aplaudida, as pessoas que não a conheciam foram abraçá-la. Ela foi muito reverenciada e ficou muito feliz. Quando perguntei se tinha ficado satisfeita com o resultado do filme, ela falou “nunca me vi tão grande”.
Ela nunca tinha entrado num cinema. A primeira vez foi para ver um filme sobre ela mesma e ficou impressionada com o tamanho da tela. Depois falou “nossa, que lugar esquisito; tudo escuro e ninguém fala nada, eu morrendo de vontade de dançar”.
Vou disponibilizar, na página da Helena do Facebook, algumas músicas e depoimentos que ela gravou e não entraram no filme.
Jerry Espíndola, cantor e violonista
Disseram que ela queria me conhecer e fui até o camarim. Ela falou assim “você é o irmão daquelas loucas? A última vez que vi suas irmãs, a gente matou duas garrafas de pinga”.
As irmãs eram a Alzira e a Tetê. Helena é uma violeira muito roots, sem técnica. Ali é só coração, coração puro, super simples o trabalho dela. Tecnicamente falando, não é uma virtuose. É uma mulher que saiu de casa para tocar violão numa época onde o machismo imperava. As mulheres não tinham direito a nada.
A história dela como mulher é muito mais importante do que a obra.
Brenda Violeira do Pantanal, 18 anos, nascida em Corumbá e radicada em São Paulo
Toco viola desde os quatro anos e um dia resolvi me aprofundar na cultura musical do estado, principalmente do pantanal. Foi quando me deparei com um toque suave instrumental, acompanhado só por violão e baixo, chamado A Volta da Guirá Campana. Logo em seguida aprendi a tocar essa música, porque gostei muito e comecei a pesquisar mais sobre a intérprete.
Hoje Dona Helena Meirelles virou a minha inspiração. Foi como achar um tesouro. Não me conquistou só pela música, mas também pela história de vida. Onde faço show, não deixo de tocar uma música dela. Fico muito feliz porque ela diz no documentário que queria deixar uma sementinha e as pessoas já pedem que eu toque.
Geraldo Espíndola, cantor e compositor
Lembro que uma vez fomos tocar em Corumbá e ficamos no mesmo hotel. Ela falava “você fumantes têm que parar de fumar, isso só atrapalha” e gargalhava.CORREIO DO ESTADO.