Análise feita nos Estados Unidos indica benefício climático em grande parte dos cenários testados, mas resultado depende de fatores como fonte da eletricidade, eficiência dos veículos e retirada definitiva do carro antigo de circulação.

Um carro elétrico é carregado em estação de recarga; estudo analisou o impacto climático da troca de veículos a combustão por modelos elétricos. — Foto: Pexels

Um carro elétrico é carregado em estação de recarga; estudo analisou o impacto climático da troca de veículos a combustão por modelos elétricos. — Foto: Pexels

Substituir um carro a combustão que ainda funciona por um elétrico pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa ao longo dos anos, mesmo quando o veículo substituído é relativamente novo.

A conclusão é de um estudo publicado na revista «Science», que analisou diferentes cenários nos Estados Unidos e buscou responder a uma questão específica: do ponto de vista das emissões de carbono, é melhor usar um carro a gasolina até o fim de sua vida útil ou antecipar sua retirada?

A resposta encontrada pelos pesquisadores Elliott Campbell, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, e Roland Geyer, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, foi favorável à troca em grande parte das situações analisadas.

⚠️ Isso não significa, porém, que substituir qualquer carro por um elétrico seja sempre a opção mais sustentável ou vantajosa.

O trabalho se concentra nas emissões de gases de efeito estufa e parte de condições específicas, entre elas a de que o veículo a combustão seja retirado definitivamente de circulação.

Para fazer a comparação, os cientistas levaram em conta não apenas as emissões produzidas durante o uso dos veículos.

A conta também incluiu etapas como fabricação do automóvel e da bateria, obtenção de matérias-primas, produção de combustível e geração da eletricidade usada para recarregar o modelo elétrico.

É justamente aí que está um dos principais pontos do estudo. Produzir um carro elétrico novo também gera emissões e, em alguns casos, essa etapa pode ter um impacto maior do que a fabricação de um modelo a combustão.

Segundo os autores, porém, essa diferença inicial pode ser compensada posteriormente porque, nos cenários analisados, os elétricos emitem menos durante o uso.

Em um exemplo usado pelos pesquisadores, um SUV médio nos Estados Unidos teria uma vida útil de 16 anos.

Se o modelo a combustão fosse retirado no segundo ano e substituído por um elétrico, as emissões acumuladas ao longo do período cairiam 44%.

➡️ Nesse cenário específico, seriam necessários cerca de três anos para compensar as emissões adicionais associadas à produção do novo veículo.

O resultado não foi igual em todas as simulações. Ao variar eficiência dos veículos, características das baterias e nível de emissões da rede elétrica, os pesquisadores encontraram redução líquida de carbono em 92% dos cenários testados.

Houve, no entanto, situações em que a vantagem diminuiu ou desapareceu, especialmente quando se combinavam um elétrico de alto consumo com eletricidade produzida por uma rede mais intensiva em carbono.

Mikel González, professor de pesquisa do BC3, que não participou do trabalho, avaliou ao Science Media Centre España que os resultados são consistentes em diferentes condições.

“Este artigo publicado na revista Science demonstra que a substituição antecipada de veículos de combustão fóssil por veículos elétricos é muito favorável do ponto de vista das emissões em quase todos os casos e contextos”, afirmou.

O pesquisador também destacou um dos cenários calculados pelos autores. “No caso extremo em que o carro de combustão fosse retirado no segundo ano, as emissões durante todo o ciclo de vida seriam reduzidas em 44%”.

Há ressalvas

Uma das principais limitações, contudo, está justamente no destino do veículo substituído. O estudo compara a continuidade do uso do carro a combustão com sua retirada permanente da frota. Se esse automóvel for apenas vendido e continuar circulando, o efeito pode ser diferente.

Os autores discutem esse problema ao avaliar a possibilidade de que uma maior oferta de carros usados reduza preços e coloque mais veículos a combustão nas ruas. Dependendo da dimensão desse efeito, parte do benefício calculado para a eletrificação poderia ser anulada.

Antonio García Martínez, professor da Universidade Politécnica de Valência, também chamou atenção para essa questão em comentário ao Science Media Centre España.

“Suas conclusões dependem de uma hipótese muito forte: que o veículo de combustão seja retirado definitivamente da frota e não continue sendo utilizado no mercado de segunda mão”, afirmou.

Ele considera o trabalho metodologicamente sólido para responder à pergunta proposta, mas ressalta que o estudo olha especificamente para a redução das emissões futuras de CO₂.

Outros aspectos ambientais, como o consumo de materiais, a energia já empregada para fabricar um automóvel ainda funcional e princípios da economia circular, ficam fora do centro da análise.

Por isso, ainda segundo ele, os resultados não devem ser interpretados como uma recomendação para que proprietários descartem carros em bom estado e comprem modelos elétricos imediatamente.

Os próprios autores observam que retirar veículos mais novos da frota é hoje economicamente pouco viável e apresentam o trabalho principalmente como uma análise sobre o potencial climático de políticas que incentivem a substituição de veículos a combustão, especialmente os menos eficientes.
Por Roberto Peixoto, g1