Entenda o plano ultra-secreto da CIA para recuperar um submarino nuclear soviético perdido durante a Guerra Fria
Após uma invasão aos escritórios de uma das maiores holdings dos EUA nos anos 70, um dos planos mais secretos da CIA veia à tona. O “roubo” de um submarino nuclear soviético, perdido no mar desde 1968.
Durante uma missão de rotina do submergível K-129, algo saiu completamente fora do roteiro. O veículo militar movido a diesel e com capacidade balística para apagar cidades do mapa completaria uma rota até uma determinada posição. Porém, após o primeiro check-in de posicionamento, desapareceu sem deixar rastros.
A informação chegou ao Kremlin (sede do governo russo) e rapidamente missões de patrulhamento foram enviadas. Os vários veículos de patrulha tentaram de tudo: câmeras, sonares, sinais de rádio… mas nada surtia efeito. Então, o K-129 foi declarado oficialmente perdido, pelo menos era o que os comandantes esperavam.
Como encontraram o submarino?
Os soviéticos imaginavam que se não conseguiram encontrar o submarino, ninguém mais conseguiria. Eles não contavam que um monitor da marinha americana iria capturar meio segundo de áudio do que poderia indicar o naufrágio de um veículo marinho de grande porte.Play Video

Com muitos esforços de engenharia e triangulação, a inteligência estado-unidense conseguiu uma localização. O evento teria ocorrido entre os 40° de latitude e 180° de longitude. As coordenadas exatas continuam mantidas sob sigilo.
Durante a Guerra Fria, os norte-americanos desenvolveram uma tecnologia para recuperar naves e objetos espaciais perdidos no mar. Parte deste aparato era o submarino Halibut, reconfigurado para a espionagem.
Um navio da CIA foi enviado para uma missão utilizando sonares e outros aparelhos em agosto de 1968. A operação foi um sucesso: o K-129 foi encontrado a mais de 4900 metros de profundidade. Naufragado e rachado perto dos lemes, os esforços para retirá-lo do leito oceânico não teriam precedentes.
A missão
Nada foi feito com relação à descoberta até 1970, quando funcionários do alto-escalão da defesa americana propuseram recuperar parte dos escombros. A motivação seria ter acesso a códigos e parte da tecnologia nuclear soviética, além de uma forma de interceptar mensagens ultra-secretas.
Como os destroços estavam localizados em uma enorme profundidade, formas mais convencionais de resgate de materiais seriam impraticáveis. Então uma solução completamente ousada foi proposta. Construir um navio capaz de erguer o K-129 do fundo do mar.

A embarcação se assemelhava aos maiores cargueiros da época — porém, com uma abertura no meio e uma gigantesca garra. O plano ousado consistia em chegar até a localização do naufrágio, içar o enorme braço mecânico, capturar o submergível e retornar a mares norte-americanos.
Teatro da CIA
Apesar da estratégia já traçada, um problema surgiu. Como transportar um aparato daquele tamanho sem levantar suspeitas?
A desculpa utilizada pela CIA foi que aquela seria uma expedição em busca de minérios no solo oceânico. Mesmo sem alarde militar, aquela parecia uma campanha tão sem sentido quanto a missão atrás do submarino.
A solução encontrada foi costurar um acordo com um dos mais excêntricos empresários da época. Howard Hughes era conhecido por encabeçar negócios extravagantes — buscar minérios no fundo do mar seria apenas mais um deles.
Projeto Azorian
Com Hughes aceitando o esquema, a CIA deu início ao Projeto Azorian, como foi chamada a missão de resgate. As empresas do empreendedor serviram como escudo burocrático e uma forma da agência de inteligência justificar os gastos.
O projeto foi dividido em duas fases. A primeira, chamada de “Branca,” serviu para construir a embarcação, definir a trajetória e maquiar o chamado até então Hughes Glomar Marine. Durante esse processo nenhum material confidencial foi exposto. A mídia foi chamada para cobrir o planejamento da suposta mineração.
Enquanto tudo isso ocorria, outra empresa de Howard ficou responsável por construir a garra. Quando ambas ficaram prontas, foi dado o início à chamada fase “Preta”.

Quando chegou o dia do começo da expedição, a CIA trocou todos os integrantes da equipe por outra autorizada a comandar o serviço confidencial. Além do pessoal licenciado, todo o equipamento do navio foi alterado para capturar o K-129.
Dia 9 de julho de 1974 a embarcação chegou ao local do naufrágio. Os americanos haviam sido seguidos por dois barcos soviéticos que tiveram curiosidade pelo que estava acontecendo. Apesar da proximidade, os russos não faziam ideia do que estava acontecendo.
Mesmo com o disfarce intacto, os comandantes decidiram por esperar os inimigos voltarem ao continente para seguir com a missão. Foi só em 31 de julho que a garra começou a descer em busca dos escombros.
Apenas no dia seguinte os destroços foram alcançados. Com uma precisão extrema, os americanos haviam chegado ao fundo do mar. Porém, no momento da subida, o submarino começou a escorregar da garra, e mais de dois terços da embarcação naufragaram novamente.
Apenas a câmara de torpedos e a bateria chegaram até o Glomar Marine. Os mísseis nucleares, os códigos e o resto do aparato se perderam novamente.
Gastos e repercussão
Os gastos de toda a operação giraram em torno de U$ 800 milhões. Corrigindo para o valor atual, cerca U$ 4,9 bilhões. Isso é mais do que o custo de muitas expedições do projeto Apollo. Apesar de ser considerado um fracasso parcial, o Projeto Azorian mostrou ao mundo a capacidade do serviço de inteligência americano em realizar operações de alta confidencialidade.
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