Foi a primeira colônia nas Américas a alcançar a liberdade da Europa. Na época, e durante as décadas seguintes, esse evento histórico repercutiu nos próprios processos de emancipação do Brasil, que culmiraram no 7 de Setembro.

SP (FOLHAPRESS) – A independência dos Estados Unidos foi uma importante mudança de paradigma não apenas para o país, mas para todo o mundo. Foi a primeira colônia nas Américas a alcançar a liberdade da Europa. Na época, e durante as décadas seguintes, esse evento histórico repercutiu nos próprios processos de emancipação do Brasil, que culmiraram no 7 de Setembro

A Inconfidência Mineira -que buscava a separação de Portugal e tinha em Tiradentes um de seus líderes- é o exemplo mais importante. Ocorrido 13 anos após a independência americana, em 1789, esse movimento bebeu da fonte vinda dos recém-criados EUA. É isso o que aponta a americana Kirsten Schultz, doutora em história da América Latina pela Universidade de Nova York e professora na Universidade Seton Hall.

Em entrevista à Folha de S.Paulo Schultz explica que, ao longo do século 18, o Brasil vinha aumentando sua integração com o mundo atlântico por meio do desenvolvimento comercial. Isso permitiu que as notícias do que vinha acontecendo nos EUA chegassem por meio de cartas, livros e no boca a boca.

A pesquisadora lembra a figura de José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788), um jovem médico que se correspondia com Thomas Jefferson (1743-1826), tendo até se encontrado com ele na França para discutir a situação brasileira. E também a de José Álvares Maciel (1760-1804), um dos principais representantes da Inconfidência, que acompanhava da Inglaterra o desenrolar das movimentações nos EUA, segundo Schultz.

Mas essa influência americana deve ser vista com cuidado. É o que defende Mary Anne Junqueira, professora nos departamentos de história e relações internacionais da USP, onde atua com especialidade na história dos EUA.

Ela reconhece a importância das ideias vindas da parte norte do continente, mas classifica esse intercâmbio como «difuso». A Europa também borbulhava com novos tipos de pensamentos, vide as reflexões de Montesquieu sobre a República -algo almejado pelos inconfidentes.

Ou seja, Junqueira enxerga um problema nessa visão de que os EUA foram um guia central para os movimentos emancipatórios de outros locais. Ela atribui isso a uma «narrativa da nação», a qual «não corresponde à história».

«Nessa narrativa, os conflitos são suprimidos, eles desaparecem. O que fica são os EUA em uma posição ascendente da independência até hoje. Se olharmos as coisas assim, vamos repetir um nacionalismo americano», diz Junqueira.
«É claro que a independência dos EUA foi uma referência importante, mas não quer dizer que era um modelo para nós», resume a professora.

Schultz concorda com esse entendimento. Para ela, a independência americana é uma das diversas influências que se acumulavam no período, em especial as revoluções Francesa e Haitiana. Todos esses processos significavam que «as coisas estavam mudando» -isto é, o chamado antigo regime começava a ruir para as grandes potências europeias.

Além da Inconfidência, a Conjuração Baiana (1798) -abolicionista e republicana- também via o processo dos EUA como uma inspiração, ainda que a revolução no Haiti tenha tido um impacto mais palpável. Afinal, o movimento baiano teve ampla participação de escravizados e outras camadas populares, algo que não se viu na mesma medida na terra de Jefferson.

Alguns anos depois, em 1817, a Revolução Pernambucana foi outra a se inspirar no que ocorreu nos EUA. Descontentes com a coroa portuguesa e seus gastos faraônicos, os revoltosos buscavam instaurar uma república federalista inspirada no modelo americano. Um emissário brasileiro foi enviado para os EUA e se encontrou com o secretário de Estado.

O cônsul do país instalado no Recife chegou a apoiar a revolta, que acabou por ser, junto com a Inconfidência e a Revolução Baiana, uma das precursoras da nossa independência.

Já sob dom Pedro 1º após a separação de Portugal, o Brasil teve a sua primeira Constituição, em 1824. Schultz afirma que à época já era possível ter acesso a diversas configurações constitucionais para estudo, e a americana seria mais uma delas. Principalmente por meio de «ideias e aspirações subjacentes de representação, direitos e cidadania», conta a pesquisadora.

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A própria independência brasileira, inclusive, em 7 de setembro de 1822, está inserida nessa onda revolucionária que varreu as Américas e o Caribe. Os EUA foram o primeiro país a reconhecê-la. Junqueira diz que «reconhecer outras independências nas Américas significava confirmar a sua própria, pois o temor de uma reação europeia era muito grande».

Schultz também mostra que essa ação era inteligente para os EUA, pois eles enxergavam o potencial econômico do Brasil. «Também fazia sentido da perspectiva dos interesses econômicos brasileiros, os quais buscavam ter o próprio comércio, sem restrições pelas políticas portuguesas.»

«Há interessantes histórias entrelaçadas entre EUA e Brasil, especialmente no que concerne à escravidão, à Guerra Civil Americana e à abolição», conclui Schultz.