Com direito a fake news e gatilhos que evocam grupos religiosos conservadores, a reta final do primeiro turno da campanha para a eleição presidencial trouxe para o centro do debate uma figura religiosa que estaria física e biologicamente ligada ao nascimento do próprio cristianismo.
Trata-se de Maria, aquela mulher que é apresentada pela Bíblia e consolidada pelas tradições cristãs como a mãe humana de Jesus, homem considerado filho de Deus pelos cristãos de todas as denominações.
No meio católico, ela também é chamada de Nossa Senhora e recebe diferentes epítetos, conforme causas ou localidades. No Brasil, o Vaticano reconhece como padroeira nacional Nossa Senhora Aparecida.
Em maior ou menor grau, protestantes enxergam de forma diferente.
Embora eles reconheçam a figura como a mulher que aceitou a missão de gerar o «filho de Deus» — que teria sido confiada por Deus por meio da visita de um anjo, conforme relato bíblico — e que viveu como modelo de fé e submissão divina, não comungam com os católicos a mesma devoção a essa mulher, para os católicos a maior das santas e a grande intermediadora entre a humanidade e Jesus.
«A controvérsia parte da reforma protestante quando o ponto era especificamente a invocação de oração a Maria», diz o teólogo e escritor evangélico Gutierres Fernandes Siqueira, membro da Assembleia de Deus e autor de, entre outros, Quem Tem Medo dos Evangélicos? – Religião e Democracia no Brasil de Hoje.
A origem do cisma está justamente no movimento histórico conhecido como Reforma Protestante, quando a Igreja Católica perdeu a hegemonia da fé, consolidada ao longo da Idade Média, e o ocidente viu nascerem as primeiras denominações protestantes.
O marco incontornável dessa divergência é, portanto, o episódio ocorrido na atual Alemanha em 31 de outubro de 1517, quando o então monge Martinho Lutero (1483-1546) afixou na porta de uma igreja suas 95 teses contra o que ele via como abusos e incoerências do catolicismo. Foi o início do racha.
«A divergência apareceu na reforma protestante mas se aprofundou e assumiu formas diferentes ao longo dos séculos seguintes», aponta o frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo, psicanalista e autor do livro 60 Dias para Mudar.
«Lutero e Calvino reconheciam Maria e falavam dela com respeito. O ponto de conflito estava sobretudo em como ela deveria ser venerada e qual o lugar de sua devoção no meio cristão», explica Solfa.

Lutero acreditava na virgindade de Maria
Autor do livro Um Olhar Sobre Maria, Serva do Senhor, o teólogo e pastor luterano Valdir Steuernagel acrescenta que ela «teve um papel importante na teologia e na prática ministerial de Lutero, ao ponto de ele mesmo escrever um pequeno livro intitulado Magnificat: O Louvor de Maria.»
«Duas notas que poderiam ser destacadas deste livro é que, segundo Lutero, Maria é serva de Deus. Ela não faz nada por si mesma e não chama para si, como diz Lutero, nenhum papel de ídolo», esclarece Steuernagel.
Outro ponto citado pelo pastor luterano é que «a escolha de Maria é sinal de que Deus usa as pessoas simples e vulneráveis deste mundo para fazer grandes coisas». Lutero escreve que ela «não tinha nenhuma importância nem estima especial» e que teria sido «uma moça comum no meio dos vizinhos».
Na visão de Steuernagel, assim Lutero criticava o catolicismo da época pelo seu «esforço em garantir o monopólio da vida religiosa de todos na sociedade e fazê-lo a partir de uma posição de poder».
Lutero não fez da questão mariana o ponto central de suas queixas — ele estava muito mais preocupado em criticar o papa como figura absolutista e em argumentar que práticas como venda de indulgências eram abusivas do que em questionar uma devoção que, a ele pessoalmente, parecia ser importante.
«Lutero era muito mais mariano do que o evangélico brasileiro de hoje, principalmente essa linha que se desdobrou dos avivamentos do século 19, com perspectiva anticatólica», reconhece Siqueira.
O reformador alemão acreditava na virgindade perpétua de Maria. «E, quando mais jovem, chegou a usar expressões em seus escritos de devoção mariana, embora tenha renunciado a isso depois», salienta Siqueira.
Mas a reforma protestante também resvalou sobre alguns aspectos mariológicos. Em primeiro lugar porque a tese central a embasar esse movimento foi um retorno às escrituras, ou seja, ao conjunto de livros que formam a Bíblia, como a única doutrina — Maria aparece nesses textos, evidentemente, mas a construção dela como santa, virgem, mãe de Deus e intercessora ocorreu por tradição, a posteriori.

O outro ponto é que os textos bíblicos condenam a idolatria e a adoração de qualquer coisa que não seja Deus. Católicos enfatizam que a relação com Nossa Senhora é de veneração ou de devoção; muitos protestantes, contudo, vêem uma ultrapassagem dessa linha tênue e criticam católicos por adorar Maria.
Esse argumento ganha força ainda maior pela prática católica de ter imagens de santos e de Nossa Senhora — o que, para protestantes, ilustra os gestos vistos como idólatras.
«Católicos não adoram Maria, não idolatram Maria. É veneração», esclarece Solfa.
Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o historiador e teólogo Gerson Leite de Moraes afirma que já havia entre as igrejas do Ocidente e do Oriente, na época pré-reforma, discussões sobre o uso de imagens nos cultos.
«Era o problema da iconoclastia», pontua ele. «No contexto da reforma, isso volta com força, com críticos dizendo que se tratava de idolatria.»
‘Medo de parecer católico’
O teólogo Siqueira lembra que outros protestantes históricos, como Jean Calvino (1509-1564) e Ulrico Zuínglio (1484-1531), «escreveram sermões sobre Maria, colocando-a em um patamar elevado», como «exemplo de fé».
«Algo que não se vê hoje em pregações evangélicas», pontua. «Raramente vemos uma postura com esse mesmo carinho com relação a ela.»
«Não é que o evangélico seja contra Maria. Mas há um medo de parecer católico. Toda vez que falamos sobre Maria precisamos fazer em um sentido mais defensivo», afirma Siqueira.
Para o teólogo, essa postura é comum entre as denominações protestantes brasileiras contemporâneas. «Assembleia de Deus, Igreja Presbiteriana do Brasil, Batista carismático, influenciadores evangélicos desses ramos, todos vão ter uma visão no sentido de que ‘os católicos estão errados e nós estamos certos'», avalia ele. «Há exceções entre luteranos, anglicanos, mas é minoria da minoria.»

Dogmas
Naquele século 16, não eram questões resolvidas na Igreja Católica. Havia discussões internas também e divergências. Os chamados dogmas marianos foram uma construção ao longo desses dois milênios — o último, aliás, que defende que Nossa Senhora subiu aos céus de corpo e alma, sem experimentar a morte, data de 1950.
A devoção à mãe de Jesus começou a se consolidar como doutrina no Concílio de Éfeso, na atual Turquia, no ano de 431. Ali havia um debate: Maria poderia ser chamada de «mãe de Deus» ou teria de ser mantida como «mãe de Cristo».
Embora a discussão fosse mariológica, o entendimento contemporâneo é de que a questão fosse cristocêntrica. Pretendia-se, em última instância, justificar a origem e a divindade daquele homem que era cultuado como Deus encarnado. Mas o título, reconhecido por aqueles cristãos, deu a Maria um status superior ao dos demais santos.
Gradualmente, o magistério católico foi detalhando a maneira como a mãe de Jesus era vista e tratada. Consolidou-se a ideia de que ela não só seria virgem quando engravidou, «por obra do Espírito Santos», para gerar Jesus, mas que também teria se mantido «pura» ao longo de toda a vida — dogma apresentado pela Igreja em 649, no Concílio de Latrão.
Maria se tornou a mãe piedosa de toda a humanidade, intercessora pronta para intermediar pedidos dos cristãos junto a Jesus e, por conseguinte, a Deus.
Mediadora
Professor na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde coordena o Laboratório de Análise do Discurso e da Argumentação Religiosa, e autor do livro O Veneno da Língua, o linguista e palestrante evangélico Lucas Nascimento diz acreditar que, embora a gênese da divergência esteja na própria reforma protestante, a «rejeição a Maria» veio do reforço do catolicismo em ver nela uma intercessora.
«O distanciamento mais radical foi ocorrendo nas gerações que se sucederam a de Lutero», analisa ele. «O verdadeiro ponto de cisão não era dizer o que era Maria, mas a função atribuída a ela.»
Para Nascimento, a intensificação da maneira como os católicos veneram Maria provocou um «abismo entre as duas tradições religiosas do cristianismo».
«Nenhum dos pais fundadores do protestantismo rebaixou a figura de Maria. Mas em algum momento, alguns movimentos cristãos, sobretudo ligados aos pentecostais e neopentecostais, rebaixaram ou passaram a não falar mais em Maria, ou a falar dela de modo a não valorizá-la», diz Nascimento.
Autor do livro Igrejas que Calam Mulheres, o pastor batista Yago Martins lembra que «a ruptura não ocorreu de uma vez, nem todos abandonaram as mesmas crenças». «Seria anacrônico imaginar que os reformadores já discutiam todos os dogmas marianos nos termos em que existem hoje», ressalta.
Lutero preferiu voltar-se à Bíblia e, com isso, acabou dando alguns passos atrás nessa devoção, mas seguiu respeitando Maria e citando-a como exemplo de fé e de submissão a Deus. «Lutero foi defensor teológico e afetivo de Maria. Ele sustentava que honrá-la era essencial», afirma Nascimento.

Polêmicas do evangelismo
De lá para cá, contudo, a Igreja Católica reforçou seu viés mariano. No Concílio de Trento, iniciado em 1545 em resposta ao movimento protestante, a veneração a Maria foi um dos pontos destacados como fundamentais do catolicismo.
Nos séculos seguintes, outros dogmas marianos foram aprovados pelo Vaticano. No século 19, a Igreja declarou que Maria não só era virgem perpétua como ela própria também teria sido concebida sem o «pecado original» — ou seja, ela seria resultado de uma gravidez ocorrida sem sexo.
Ideias que são desacreditadas pelos evangélicos. Siqueira comenta, por exemplo, que hoje em dia «um evangélico comum abomina» a ideia de que Maria tenha permanecido virgem. «É meio consenso que depois ela teria tido filhos com José», afirma Siqueira.
«As divergências quanto ao papel de Maria não são estáticas e vão sendo mapeadas no decorrer da história», diz Steuernagel. «Um exemplo poderia ser a doutrina da assunção de Maria, da qual os evangélicos discordam.»
Por outro lado, o segmento cristão protestante também foi evoluindo. Sempre se baseando na Bíblia como verdade, ou seja, sem a tradição construída por documentos papais, como ocorre no catolicismo.
A questão mariana, tal e qual um ipsilone em que as pontas superiores seguiram sendo desenhadas, deixou esses dois lados cristãos cada vez mais afastados.
Com a consolidação do evangélico, nas suas vertentes pentecostal e neopentecostal, a postura frente a Maria se tornou mais do que fé, identidade. «Em nome dessa construção, houve a marcação de limites para evitar traços que remetessem ao catolicismo», argumenta Nascimento.
Moraes avalia que, com a tradição e os dogmas, o catolicismo promoveu uma «evolução do papel de Maria o longo de muitos séculos» — enquanto os protestantes seguiram se fiando à Bíblia.
Para Siqueira, conciliar essas visões é impossível. «Trata-se de uma divergência central do pensamento protestante», crava.
«O mundo reformado, de forma geral, afirma que ela é mãe de Jesus, formou família e teve vários outros filhos, deu a ele uma educação crente, de conformidade à sua tradição judaica, e inclusive teve dificuldades em entender, num dado momento, o ministério do próprio Jesus», diz Steuernagel . «E ao final ela é encontrada aos pés do Jesus crucificado e na comunidade dos discípulos de Jesus.»
«Na tradição protestante Maria é a mãe de Jesus que veio a ser uma discípula de Jesus. Só isso e tudo isso», enfatiza Steuernagel.
«No meio protestante, Maria é a escolhida, a bem-aventurada. Teve o privilégio de ser a mãe do salvador. E ponto», resume Moraes. «Do ponto de vista teológico, uma conciliação é muito difícil. Protestantes e católicos têm diferenças a respeito de Maria há muito tempo.»
Mas ele acredita que, com raras exceções, brasileiros tendem a defender suas visões religiosas «com respeito, sem atacar a fé do outro, sem deslegitimar a fé do outro ou atacar o símbolo do outro».
Nascimento acredita que o impacto midiático dessa divergência em muito diz sobre o fato de que o «evangelismo é polêmico». «Por meio da polêmica que eles se distinguem do outro. Até como forma, inclusive, se serem reação ao fato de o Brasil partir, historicamente, de um matriz católica para definir o que é religião», comenta.
«Maria é a mãe de Jesus, sua concepção virginal é parte da fé cristã histórica, e sua obediência merece ser lembrada», diz o pastor Martins. «Mas o espaço dado a Maria na liturgia, os títulos empregados e as crenças sobre sua vida variam muito entre as tradições.»
«Não é possível conciliar integralmente as duas posições sem que uma delas abandone convicções fundamentais», declara o pastor. «Podemos dialogar com respeito e reconhecer pontos em comum, mas existem afirmações doutrinárias incompatíveis. Considero possível a convivência respeitosa e a cooperação social, mas não uma conciliação doutrinária que preserve integralmente as duas posições.»
O frade Solfa também diz não acreditar em convergência acerca do tema, mas vê «possibilidades de aproximação e diálogo ecumênico, embora sem eliminar as divergência teológicas».
«O principal ponto em comum é que Maria está ligada a Cristo. Este é o princípio mais importante. Católicos e protestantes podem afirmar juntos que Maria só pode ser compreendida a partir de Jesus Cristo», argumenta o frade católico.
BBC NEWS











