A inteligência artificial passou a ocupar um papel cada vez mais estrutural na organização de grandes eventos globais. Eleições, Copas do Mundo e Conferências Climáticas sempre funcionaram como vitrines para novas tecnologias, mas nos últimos anos ocorreu uma mudança mais profunda, onde a IA passou a operar como infraestrutura visível em sistemas complexos de logística, comunicação, segurança e análise de dados.

Esse movimento já pode ser observado em eventos recentes. Nas Olimpíadas de Paris 2024, por exemplo, cerca de 300 câmeras equipadas com sistemas de inteligência artificial foram utilizadas para monitorar multidões e identificar, em tempo real, situações como bagagens abandonadas, comportamentos suspeitos ou aglomerações com potencial de risco. Em eventos dessa escala, a capacidade de analisar milhares de sinais simultaneamente amplia o tempo de resposta das equipes de segurança e melhora a coordenação logística de fluxos de pessoas.

A tendência, porém, vai além da segurança. A Copa do Mundo de 2026 deverá consolidar um novo patamar de uso de dados e IA no esporte com a implementação da suíte Football AI, um conjunto de ferramentas voltadas à arbitragem, análise de desempenho e operação dos jogos. O sistema inclui avatares tridimensionais gerados por IA para todos os 1.248 jogadores participantes, utilizados para aprimorar o impedimento semiautomático, além de câmeras corporais para árbitros com estabilização em tempo real, digital twins dos estádios e assistentes analíticos capazes de processar centenas de milhões de dados por partida.

Essas tecnologias transformam o evento esportivo em um ambiente altamente instrumentado, no qual decisões antes baseadas apenas na percepção humana passam a ser apoiadas por modelos de análise em larga escala, com o objetivo de ampliar a capacidade de interpretação de cenários complexos em tempo real.

Quando o foco se destaca para eventos políticos ou ambientais, no entanto, as implicações da IA se tornam mais sensíveis. A agenda climática é um bom exemplo desse paradoxo. Durante a COP30, realizada em Belém, a tecnologia foi incorporada ao debate global sobre clima. Entre as iniciativas apresentadas esteve o Climate TRACE, que utiliza IA combinada a imagens de satélite para mapear emissões de gases de efeito estufa com mais precisão e transparência.

Ferramentas de IA podem aprimorar o monitoramento de emissões, reduzindo a dependência de relatórios declaratórios. No entanto, o uso dessa tecnologia ainda gera um dilema ambiental: o treinamento de modelos de IA e a operação de data centers consomem muita energia e água, levantando questões sobre a sustentabilidade tecnológica.